domingo, 20 de janeiro de 2019



19 DE JANEIRO DE 2019
LEANDRO KARNAL


O valor da vigilância


Os acontecimentos que irei descrever são verdadeiros, ainda que nem todos tenham ocorrido com os nomes e locais descritos adiante. Tendo em vista minha segurança individual e eventuais problemas jurídicos, fui aconselhado a mudar detalhes.

Todos entenderão o cuidado e o pudor. Os fatos são terríveis e eu próprio duvidei muito da propriedade de narrá-los aqui em espaço tão importante. Finalmente, entendi que era meu imperioso dever de colunista e homem público. Vamos às tragédias que vão eriçar todos os seus pelos e corar as faces mais incautas!

Vou começar narrando o recente caso de uma detenção no aeroporto de Guarulhos. Vindo da Dinamarca, um rapaz alto e loiro foi encaminhado pela Polícia Federal a um demorado interrogatório. Seu nome? Pouco importa, todavia muita gente o conhece como "o Príncipe da Bela Adormecida". O jovem está preso. Acusação? Assédio!

Todos sabem do caso. O nobre encontrou uma jovem dormindo. Tarado de quatro costados, aproveitou-se da situação da donzela drogada, tascou-lhe um beijo. À queima-roupa! Sem consentimento! Sem uma conversa antes. Considerando que a bela princesa tinha uns 118 anos mais do que ele, além do assédio é destruição da dignidade de uma idosa. Mais, antes de encontrar a senhora catalética, ainda matou a madrasta dizendo se tratar de um dragão (apenas uma sogra, no fundo). A opinião pública ficará ao lado do Brasil que cumpre mandato da zelosa Interpol.

Aguardando julgamento, o fauno de sangue azul encontrou um colega na prisão: o Príncipe da Branca de Neve. A acusação foi piorada pelo fato de que, estando em um caixão, a princesa era considerada morta pelos seus sete tutores legais. Assim, some-se a tara do meliante com hedionda necrofilia. Não respeitam vivos ou mortos! Todas as pessoas esperam que os sedutores apodreçam na cela mais funda e úmida da masmorra mais medonha. Nunca se deve descuidar do mal em suas múltiplas possibilidades. De todos os lados se erguem inimigos da moral e dos bons costumes.

Tranquilizem-se, queridas leitoras e estimados leitores. Há notícias de que o sistema jurídico fez uma limpeza mais profunda. Foi identificado um grupo que cantava, animado, em plena área de embarque do aeroporto, texto profano e agressivo que reproduzo a contragosto: "Atirei o pau no gato tô, mas o gato tô não morreu reu reu". Violência explícita contra os animais! Autoridades detiveram os cantantes, encaminhando-os ao órgão competente do Ibama! O peso da lei já cai também contra caçadores do lobo mau que estavam de olho no dote de uma menor de chapéu vermelho.

Pasmem: não chegamos ao fundo do poço. Um julgamento envolve toda uma família. Dois pais abandonaram os menores João e Maria na mata para morrerem! Sim, morreriam de fome, frio ou sob ataque de borrachudos canibais. Abandono de incapaz, premeditado e reincidente, pois voltaram a repetir o crime infame no dia seguinte. Os dois jovens, até aqui vítimas, invadiram uma propriedade e destruíram uma casa de doces de uma senhora excêntrica na Serra do Mar.

Depois, não bastasse todo o narrado, o menor meliante João empurrou a idosa (aos gritos agressivos de "bruxa") para um forno ardente. Queimaram viva a proprietária, roubaram seus bens obtidos em empréstimo consignado da aposentadoria e, triunfantes, voltaram aos pais relapsos! Quatro assassinos morando na mesma casa sob expensas da boa senhora. Desejamos que os quatro aproveitem as longas férias no xilindró.

O preço da nossa liberdade é a eterna vigilância. Pior, não bastassem os crimes imensos, as pessoas queriam narrá-los a crianças nas escolas. Já imaginaram a perversão que os fatos provocariam, mormente se destacados como histórias infantis leves e educativas. Assédio sexual, cenas de quase estupro, violação de propriedade, indivíduos queimados vivos, animais caçados ou abatidos a pauladas, pais abandonando menores e tudo isso seria usado como material educativo e lúdico! Já imaginaram a falta de limites dessa gente?

Foi necessária a intervenção de agentes preclaros para que todos aqui pudéssemos entender os riscos das narrativas lascivas que se apresentavam como ingênuas. Uma leitora enviou-nos o relato que mostra como devemos estar atentos a tudo. Ela estava na sua residência, tranquila e feliz. Em uma tarde quente de sábado, a laboriosa senhora ouviu um barulho junto ao rio próximo. Percebeu que eram jovens nus tomando banho, alegres e impudicos. Horrorizada, a reclamante foi ao delegado e exigiu providências.

A autoridade cumpriu o seu papel e mandou os nudistas para longe. Assustados pelas ameaças do encarregado da ordem pública, os rapazes passaram a se banhar bem abaixo, sem saber que, do terraço superior, a senhora ainda podia avistá-los. Nova intervenção da lei e os exibicionistas foram instados a irem muito, muito mais baixo no mesmo curso d?água, sob penas terríveis.

Derradeira reclamação da boa cidadã: nossa leitora informou que, subindo no telhado do sobrado e munida de poderoso binóculo, ela ainda conseguia ver os rapazes pelados. Viram? Nunca se pode descansar em busca da defesa da moralidade. A senhora já encomendou um telescópio porque ouviu falar que, em rio de outras regiões, havia mais rapazes despudorados exibindo suas vergonhas. Até onde teremos de esticar nossa visão impoluta para encontrar o mal? Sempre alerta! Sempre alerta! Eia, sus, à luta! É preciso ter esperança!

LEANDRO KARNAL

terça-feira, 15 de janeiro de 2019


15 DE JANEIRO DE 2019
INDICADORES

Entusiasmo sem otimismo


Mudanças! Afinal os médicos cubanos e o assassino italiano que vivia no paraíso da impunidade já foram para casa, dois absurdos rapidamente terminados. Desmanchar é a principal tarefa deste novo governo. Diminuir o Estado, a burocracia, a ineficiência e, por fim, a injustiça... Não é por falta de juiz bem remunerado que vivemos na injustiça, é por falta de uma cultura que premie o cidadão que trabalha, que é honesto e permita a ele dizer para onde o governo deve ir e não o contrário. Permita a ele ter o direito de, para defender sua família, decidir em possuir ou não uma arma em sua casa.

Num país onde trabalhar no Uber é caminho para cemitério com direito assegurado ao assassino de "proteção" legal e indultos em algum Natal próximo e onde o crime só faz compensar as coisas tem de mudar. E lá estão os legisladores, os antigos e quiçá os novos, esperando sua cota de vantagens para alterar pequenos trechos de uma Carta moribunda escrita para beneficiar, por exemplo, mais de 50 mil senhores imunes a qualquer investigação que não seja a do STF.

Como disse o ministro Guedes em seu discurso de posse, a democracia brasileira gerou uma aliança entre conservadores e liberais, chamada de direita pela esquerda de plantão, para dar uma oportunidade ao Brasil de abandonar 130 anos de uma cultura de esquerda, onde o Estado não é uma instituição-meio e sim uma instituição-fim existindo para atender suas próprias necessidades. 

Prometendo, e só prometendo, benefícios, ele justifica sua construção num processo de exploração via impostos de seu povo produtivo. Tudo forjado nas ideias positivistas dos primeiros atores da República e que evoluíram via personagens como Floriano, Castilhos, Borges, Getúlio, os militares de 64 e, finalmente, via MDB, PSDB e PT. Todo mundo alinhado criando tetas e mais tetas, sem falar na corrupção.

Esta cultura é contra a grande e verdadeira minoria humana existente no planeta: o indivíduo. Ao limitar liberdades individuais, o Estado passa a ser a solução divina para a construção da sociedade e isto não funciona. Ela deve se formar da cooperação individual via valores comuns considerados do bem (os valores conservadores) e sua riqueza vem da liberdade para produzir (economia liberal). Com entusiasmo, mas com limitado otimismo pela reação de muitos, observo a oportunidade em curso.

RICARDO FELIZZOLA

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018


31 DE DEZEMBRO DE 2018
DAVID COIMBRA

O ano em que a social-democracia foi à lona


Lá adiante, vivendo no saudável distanciamento histórico, que fica no lugar de onde se vê o que já não existe mais, lá adiante, as pessoas talvez olhem para 2018 como o ano em que a social-democracia sofreu o definitivo gancho no bico do queixo. Você sabe: é aquele murro que faz o cérebro bater contra as paredes da caixa craniana e leva o lutador a nocaute. Quer fazê-lo sentir dor, atinja-o rim. Quer fazê-lo dormir, bico do queixo. No começo da década, a social-democracia começou a receber golpes nas ilhargas, enfraqueceu-se, abriu a guarda e, em 2018, foi à lona.

Você pode achar abstrato falar em "social-democracia". Pode achar que essa discussão não faz parte do seu dia. Ao contrário. A social-democracia, depois da II Guerra Mundial, passou a ser identificada como o sistema político-administrativo ideal em quase todo o Ocidente. O bom sucesso da Alemanha foi o maior responsável por esse conceito. O grande campeão da social-democracia, Willy Brandt, chegou a ganhar o Nobel da Paz, e, antes dele, Konrad Adenauer não se dizia social-democrata, mas, em sua atuação, é claro que era.

Assim, a Europa inteira foi se tornando social-democrata, às vezes mais à esquerda, às vezes mais à direita. O Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, a Coreia do Sul, o Japão também aderiram a tipos flexíveis de social-democracia. Nos Estados Unidos, a social-democracia de Roosevelt foi festejada como a redentora do país depois da crise dos anos 1930. Houve interregnos reformistas, como nos períodos de Reagan e da sua mentora britânica, Margaret Thatcher, mas, em geral, os governantes de maior prestígio nos dois lados do Atlântico, Clinton, Obama, Tony Blair, eram sociais-democratas.

No Brasil, o pensamento social-democrata foi absoluto. O lema do governo Sarney era "tudo pelo social". O PT não é comunista coisa nenhuma; é social-democrata. E o PSDB leva a social-democracia no nome. Se você examinar detidamente as ideias dos políticos brasileiros, constatará que quase todos são sociais-democratas, dos mais à esquerda aos mais à direita. Alguns não têm ideia nenhuma, é verdade, mas, se você perguntar no que eles acreditam, eles apontarão para a ideia social-democrata do vizinho.

Em 2018, a lógica da social-democracia foi fraturada. Mas que lógica é essa, afinal? Em uma frase: é a de que os ideais de liberdade e igualdade sejam garantidos dentro de uma economia de mercado bem regulada pelo Estado.

As pessoas não acreditam mais nisso. De cinco anos para cá, elas têm explodido em revoltas ocasionais contra pedaços dessas convicções. Em geral, elas nem sabem com exatidão por que estão se rebelando, como nos recentes protestos dos coletes amarelos na França ou nas marchas de 2013 no Brasil, mas o fato é que elas estão insatisfeitas. Donde, o sucesso de Bolsonaro, de Trump, do Brexit et caterva.

Em toda parte, no Ocidente, as pessoas estão gritando que, com a social-democracia, o Estado adquire muita fluidez e muita abrangência, enquanto perde sua força de controle das relações sociais. Na América Latina, a situação é mais grave: o Estado parece existir apenas para continuar existindo. Ele se retroalimenta. Deveria ser uma entidade criada pela sociedade para servi-la, mas é ele que se serve dela. A sociedade se sacrifica para manter vivo um Estado cada dia mais faminto, cada dia mais exigente.

A social-democracia foi ao chão em 2018. Está vencida e desacordada. Ainda poderá se levantar. Mas terá de mudar.

DAVID COIMBRA

31 DE DEZEMBRO DE 2018
RBS BRASÍLIA

Jair e a posse dos sonhos


Forjado no antipetismo e embalado pelo discurso da segurança, Jair Bolsonaro tem tudo para viver a cerimônia de posse que sempre sonhou. Diante da expectativa de um público recorde na Esplanada, ele mesmo tratou de animar ainda mais seus apoiadores: guardou para as vésperas do evento o anúncio da publicação de um decreto para facilitar a posse de armas. É uma bandeira simples de campanha, que atinge em especial uma demanda do homem do campo. Isso não quer dizer que as pessoas poderão andar armadas por aí, mas que será mais fácil ter um revólver dentro de casa. 

A medida aquece os negócios da indústria de armas e empolga o eleitor clássico de Bolsonaro, mas é uma ilusão. O problema da segurança no Brasil não passa pela flexibilização do Estatuto do Desarmamento. O futuro ministro da Justiça Sergio Moro sabe disso, mas apoiou o anúncio do futuro presidente. Sabe que é importante que o chefe assuma com medidas que inflamem a alta popularidade. Outras ações do mesmo quilate já estão no forno para os primeiros dias de governo.

PRESENTÃO

Petistas passaram o final de semana nas redes sociais, justificando a decisão nada democrática de não participar da posse do presidente da República eleito, colocando lenha na fogueira da polarização. Mas quem ganha é Bolsonaro, que recebe de presente mais um motivo para legitimar o discurso do "nós contra eles".

CONDIÇÃO

José Fogaça (MDB) optou por não assumir automaticamente a vaga de suplente de Osmar Terra, que será ministro da Cidadania. Como a Câmara está em recesso, ele avisa que só assumirá se houver convocação extraordinária ou for chamado para comissão representativa. O cargo poderá ficar vago por 30 dias, uma economia de R$ 33,7 mil.

NO HORIZONTE

O Estado deve receber nos próximos quatro anos pelo menos R$ 300 milhões para investimentos em aeroportos. A principal obra deve ser a construção de um novo terminal em Caxias do Sul. O aeroporto vai funcionar no distrito de Vila Oliva. Segundo o diretor de investimentos da secretaria de Aviação Civil, o gaúcho Eduardo Bernardi, os recursos estão garantidos.

Feliz Ano-Novo!

Colaborou Silvana Pires - CAROLINA BAHIA

31 DE DEZEMBRO DE 2018
ARTIGOS

ROMPER COM O QUE DIVERGE, BUSCAR O QUE CONVERGE


O 2019 que se inicia deve ser o ano desenhado a partir dos obstáculos acumulados em 2018. O Estado se debate na maior crise de sua história. Há desafios decisivos em todas as áreas. Conhecemos as dificuldades e procuramos montar uma equipe de alta eficiência, tanto tecnicamente quanto politicamente. Estamos preparados para enfrentar os desafios.

O 2019, no entanto, pode ser o ano em que o Rio Grande exorcizará a sina de território simbólico rachado, em que as rivalidades se tornam irreconciliáveis e o irracional prepondera sobre a razão simplesmente porque a solução não foi proposta por si, mas pelo outro.

Como governador, mais do que desejo, é meu dever propor o rompimento dessa cultura que muito já nos tirou e, ao fim, nos levou à situação em que nos encontramos hoje.

Afirmo meu compromisso de lutar no Rio Grande do Sul por duas causas: uma, imediata, a saída da crise e a retomada do crescimento econômico; outra, estratégica, de deflagrar o processo de um Estado de vanguarda, inovador e receptivo a quem quiser empreender e provedor de serviços de excelência em saúde, educação, segurança.

Tenho trabalhado intensamente desde as eleições para promover a conciliação junto a aliados e adversários, por convicção de que, separados, não chegaremos a lugar algum, e a certeza de que as receitas anteriores não mais nos servem.

A finalidade é dizer não ao que diverge; buscar à exaustão o que converge e romper com o arquétipo positivista que conduziu a política rio-grandense desde o final do século 19: adversário é inimigo, opostos não se atraem. Reconstruir as bases do Estado a partir do que nos une e não do que nos separa é o desafio que aceitei.

Cabe destacar que o propósito não é, em si, unir, mas unir em torno do propósito. E esse 2019 que se inicia tem a chance de passar para a história como o ano em que o gaúcho quebrou de vez a polarização, o atraso, e finalmente se uniu em torno de uma proposta sublime: resgatar de fato a grandeza que a sua querência carrega no nome e fazer desse efetivamente um lugar que sirva de modelo, próspero, seguro, amigável e, por isso, cada vez melhor de empreender e viver.

Para 2019 cumprir esses propósitos depende apenas de nós. De todos nós.

EDUARDO LEITE