terça-feira, 12 de fevereiro de 2019


12 DE FEVEREIRO DE 2019
EM DIA

Não abortem sementes de futuro


Buscar riqueza pela inovação preocupa a todos, e o governo tem de ser protagonista. No entanto, a inovação não vem sendo bem tratada no Brasil por falta de compreensão do fenômeno. Há uma simplificação perigosa que confunde ciência e tecnologia (C&T) com inovação.

O ambiente inovador é muito mais do que C&T. Ele precisa de capital humano gerado por educação excelente. Necessita, ainda, de conhecimento, ou seja, de uma tradição de geração e acúmulo de acervos sobre determinados assuntos que vão gerar a base para mais aperfeiçoamentos. Precisa, também, de financiamento, cultura empreendedora (que só existe sob o entendimento completo do que é o capitalismo) e de marcos legais apropriados que façam a sociedade apoiar iniciativas pioneiras com condições especiais temporárias.

Um dos setores que mais gera inovações é o de semicondutores. Há 50 anos, a Coreia do Sul lançou bases no seu setor público e privado para aí investir e, hoje, tem, entre muitas, uma empresa que é a número um no mundo e líder em inovações: a Samsung. Trata-se de empreendimento concebido pela vontade dos coreanos, amadureceu em várias etapas e foi capaz de ter a competitividade necessária para gerar frutos para o país. No Brasil, hoje, discute- se a descontinuidade da nossa primeira empresa de semicondutores, a estatal Ceitec. 

É o único empreendimento da América Latina capaz de, a partir do silício, fazer um chip, um circuito eletrônico integrado. Certo que ainda de forma não competitiva, mas trata-se de um "feto" em termos de empreendimento na área. O Ceitec ainda não saiu da barriga da mãe. E já querem abortá-lo, querem que viva por conta própria, como se fosse uma estatal como o Banco do Brasil, que tem mais de cem anos. 

O Ceitec faz parte de um novo ecossistema no RS e no Brasil. Sua existência gerou motivação para investimentos privados como o projeto HT Micron (US$ 100 milhões), o Instituto de Semicondutores da Unisinos e outros que começam a operar na cadeia produtiva. Tudo no início. Descontinuar o Ceitec seria abortar toda uma cadeia, toda uma vontade. Deixem pelo menos o feto nascer e que, quando adolescente, passe para a iniciativa privada. Assim, os responsáveis do governo estariam cumprindo corretamente seu papel de pais responsáveis e indutores de prosperidade futura via o mais importante setor da inovação que é o de semicondutores.

RICARDO FELIZZOLA - CEO do Grupo PARIT S/A

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019



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  • Local: Espaço do Bosque, São Paulo



Brumadinho: a gestão na lama

28/01/2019 
Por Jairo Martins, presidente executivo da FNQ

Sendo o primeiro artigo do ano, pensei em escrever algo mais otimista, já que, com as mudanças no governo, quase todos os brasileiros, com exceção de uma certa minoria, têm a expectativa e torcem para que as coisas comecem a dar certo.

Infelizmente, tive de mudar de ideia e priorizar o mais importante, pois mais uma vez fomos impactados por uma catástrofe - o rompimento da barragem de Brumadinho -, não bastassem as ocorrências recentes como: o incêndio da Boate Kiss, as mortes no trânsito por imprudência e embriaguez, as mortes em hospitais por falta de assistência, o rompimento da barragem de Mariana, as fissuras nos viadutos de São Paulo, o incêndio do Museu Nacional, entre outras. Apesar da perda de milhares de vidas, as providências caem no esquecimento e tudo volta a acontecer, causando surpresas, pedidos de desculpas e ações improvisadas.

Ora, sabemos que acontecimentos são sempre relações de causas e efeitos e que o sucesso é a combinação harmônica desses dois itens. Fracasso ou crise é a precipitação desestruturada dessas relações. A má qualidade da gestão é a principal barreira para o sucesso de qualquer empreendimento. Sublata causa tollitur effectus - eliminada a causa, desaparece o efeito. Simples assim!

Quantas mortes ainda precisam acontecer para que o País como um todo se mobilize: governantes, políticos, empresários e sociedade? O que mais precisa acontecer para sairmos deste estado de letargia, acomodação, apatia e incúria? Quando vamos todos nós, brasileiros, definitivamente, nos posicionarmos, cobrarmos, pressionarmos e nos indignarmos para fazer as coisas acontecerem? Quando vamos levar, finalmente, o nosso País a sério?

Os efeitos são conhecidos e estão aí para que todos vejam, sintam, sofram, lamentem-se e chorem. As causas são por demais sabidas também: desvios de verbas públicas, incompetência, despreparo, pessoas erradas nos lugares errados, descaso, falta de vergonha na cara, omissão e falta de compromisso com o Brasil e com os brasileiros.

Os governantes e os políticos têm a maior parte da culpa, pois, apesar de tantos alertas, ainda continuam a agir do mesmo jeito: ocupando cargos técnicos com políticos incompetentes, distribuindo diretorias entre partidos, entregando ministérios e secretarias a pessoas despreparadas, apaniguando criminosos e bandidos. Depois de tantas tragédias, será que ainda não ficou claro que uma carreira política não qualifica um bom gestor?

Os empresários têm também, sem dúvida, boa parte da culpa, pois com a visão a curto prazo, sem o olhar para o futuro, perderam a capacidade de se organizar em favor do bem comum. Ao invés disso, procuraram, em uma atitude individualista, focados apenas no market share, explorar os recursos naturais do País de forma desmedida e pagar, por meios escusos, a publicação de medidas provisórias para a liberação de conveniências e subsídios paralisantes. Onde está o comprometimento do empresariado com o futuro do Brasil?

Por fim, embora em menor dose, a sociedade também tem a sua culpa, por deixar-se engabelar por políticos inidôneos, trocando votos por camisetas, selfies, abraços falsos e promessas vazias e elegendo representantes inescrupulosos, cujo único objetivo é roubar em benefício próprio e das suas gangues.

A boa notícia é que os Fundamentos da Gestão estão disponíveis e acessíveis a todos. É uma questão de querer, usar e trabalhar, tendo a excelência com meta. A FNQ - Fundação Nacional da Qualidade, criada há 27 anos, tem o nobre propósito de “Transformar pela Gestão”. 

Acreditamos que a capacidade de adaptação é o que promove a evolução das pessoas, a perenidade das organizações e instituições e a construção de uma sociedade mais engajada, para termos um País viável, mais ético, sustentável e justo. Apoiar, capacitar e instrumentalizar as organizações na jornada da transformação, em busca da excelência, para enfrentar, com responsabilidade, os desafios impostos pelos cenários, é a causa da FNQ.

Não há dúvidas de que em um mundo em constante mutação, de forma imprevisível e quase incontrolável, os setores público e privado devem estar atentos a tudo e se unir para, corajosamente, enfrentar os desafios atuais. Nesse processo de alinhamento de esforços é imprescindível que cada um assuma um papel responsável, questionador, ativo e convergente, servindo de exemplo à sociedade, promovendo o bem-estar econômico-social coletivo e preservando os recursos naturais, de forma a construir uma sociedade evoluída, economicamente viável, socialmente justa, ambientalmente consciente e eticamente livre e transparente.

É preciso, portanto, nesse momento em que estamos cheios de esperança com um novo governo e em que o mundo nos olha com boas expectativas, que a Excelência da Gestão passe a ser o novo marco institucional do Brasil, que alinhe a sociedade e os setores público e privado, resgatando a produtividade e a competitividade do País, para que possamos gerar empregos e retomar o desenvolvimento sustentável, livre de tragédias e das incompetências que as causam.

domingo, 20 de janeiro de 2019



19 DE JANEIRO DE 2019
LEANDRO KARNAL


O valor da vigilância


Os acontecimentos que irei descrever são verdadeiros, ainda que nem todos tenham ocorrido com os nomes e locais descritos adiante. Tendo em vista minha segurança individual e eventuais problemas jurídicos, fui aconselhado a mudar detalhes.

Todos entenderão o cuidado e o pudor. Os fatos são terríveis e eu próprio duvidei muito da propriedade de narrá-los aqui em espaço tão importante. Finalmente, entendi que era meu imperioso dever de colunista e homem público. Vamos às tragédias que vão eriçar todos os seus pelos e corar as faces mais incautas!

Vou começar narrando o recente caso de uma detenção no aeroporto de Guarulhos. Vindo da Dinamarca, um rapaz alto e loiro foi encaminhado pela Polícia Federal a um demorado interrogatório. Seu nome? Pouco importa, todavia muita gente o conhece como "o Príncipe da Bela Adormecida". O jovem está preso. Acusação? Assédio!

Todos sabem do caso. O nobre encontrou uma jovem dormindo. Tarado de quatro costados, aproveitou-se da situação da donzela drogada, tascou-lhe um beijo. À queima-roupa! Sem consentimento! Sem uma conversa antes. Considerando que a bela princesa tinha uns 118 anos mais do que ele, além do assédio é destruição da dignidade de uma idosa. Mais, antes de encontrar a senhora catalética, ainda matou a madrasta dizendo se tratar de um dragão (apenas uma sogra, no fundo). A opinião pública ficará ao lado do Brasil que cumpre mandato da zelosa Interpol.

Aguardando julgamento, o fauno de sangue azul encontrou um colega na prisão: o Príncipe da Branca de Neve. A acusação foi piorada pelo fato de que, estando em um caixão, a princesa era considerada morta pelos seus sete tutores legais. Assim, some-se a tara do meliante com hedionda necrofilia. Não respeitam vivos ou mortos! Todas as pessoas esperam que os sedutores apodreçam na cela mais funda e úmida da masmorra mais medonha. Nunca se deve descuidar do mal em suas múltiplas possibilidades. De todos os lados se erguem inimigos da moral e dos bons costumes.

Tranquilizem-se, queridas leitoras e estimados leitores. Há notícias de que o sistema jurídico fez uma limpeza mais profunda. Foi identificado um grupo que cantava, animado, em plena área de embarque do aeroporto, texto profano e agressivo que reproduzo a contragosto: "Atirei o pau no gato tô, mas o gato tô não morreu reu reu". Violência explícita contra os animais! Autoridades detiveram os cantantes, encaminhando-os ao órgão competente do Ibama! O peso da lei já cai também contra caçadores do lobo mau que estavam de olho no dote de uma menor de chapéu vermelho.

Pasmem: não chegamos ao fundo do poço. Um julgamento envolve toda uma família. Dois pais abandonaram os menores João e Maria na mata para morrerem! Sim, morreriam de fome, frio ou sob ataque de borrachudos canibais. Abandono de incapaz, premeditado e reincidente, pois voltaram a repetir o crime infame no dia seguinte. Os dois jovens, até aqui vítimas, invadiram uma propriedade e destruíram uma casa de doces de uma senhora excêntrica na Serra do Mar.

Depois, não bastasse todo o narrado, o menor meliante João empurrou a idosa (aos gritos agressivos de "bruxa") para um forno ardente. Queimaram viva a proprietária, roubaram seus bens obtidos em empréstimo consignado da aposentadoria e, triunfantes, voltaram aos pais relapsos! Quatro assassinos morando na mesma casa sob expensas da boa senhora. Desejamos que os quatro aproveitem as longas férias no xilindró.

O preço da nossa liberdade é a eterna vigilância. Pior, não bastassem os crimes imensos, as pessoas queriam narrá-los a crianças nas escolas. Já imaginaram a perversão que os fatos provocariam, mormente se destacados como histórias infantis leves e educativas. Assédio sexual, cenas de quase estupro, violação de propriedade, indivíduos queimados vivos, animais caçados ou abatidos a pauladas, pais abandonando menores e tudo isso seria usado como material educativo e lúdico! Já imaginaram a falta de limites dessa gente?

Foi necessária a intervenção de agentes preclaros para que todos aqui pudéssemos entender os riscos das narrativas lascivas que se apresentavam como ingênuas. Uma leitora enviou-nos o relato que mostra como devemos estar atentos a tudo. Ela estava na sua residência, tranquila e feliz. Em uma tarde quente de sábado, a laboriosa senhora ouviu um barulho junto ao rio próximo. Percebeu que eram jovens nus tomando banho, alegres e impudicos. Horrorizada, a reclamante foi ao delegado e exigiu providências.

A autoridade cumpriu o seu papel e mandou os nudistas para longe. Assustados pelas ameaças do encarregado da ordem pública, os rapazes passaram a se banhar bem abaixo, sem saber que, do terraço superior, a senhora ainda podia avistá-los. Nova intervenção da lei e os exibicionistas foram instados a irem muito, muito mais baixo no mesmo curso d?água, sob penas terríveis.

Derradeira reclamação da boa cidadã: nossa leitora informou que, subindo no telhado do sobrado e munida de poderoso binóculo, ela ainda conseguia ver os rapazes pelados. Viram? Nunca se pode descansar em busca da defesa da moralidade. A senhora já encomendou um telescópio porque ouviu falar que, em rio de outras regiões, havia mais rapazes despudorados exibindo suas vergonhas. Até onde teremos de esticar nossa visão impoluta para encontrar o mal? Sempre alerta! Sempre alerta! Eia, sus, à luta! É preciso ter esperança!

LEANDRO KARNAL

terça-feira, 15 de janeiro de 2019


15 DE JANEIRO DE 2019
INDICADORES

Entusiasmo sem otimismo


Mudanças! Afinal os médicos cubanos e o assassino italiano que vivia no paraíso da impunidade já foram para casa, dois absurdos rapidamente terminados. Desmanchar é a principal tarefa deste novo governo. Diminuir o Estado, a burocracia, a ineficiência e, por fim, a injustiça... Não é por falta de juiz bem remunerado que vivemos na injustiça, é por falta de uma cultura que premie o cidadão que trabalha, que é honesto e permita a ele dizer para onde o governo deve ir e não o contrário. Permita a ele ter o direito de, para defender sua família, decidir em possuir ou não uma arma em sua casa.

Num país onde trabalhar no Uber é caminho para cemitério com direito assegurado ao assassino de "proteção" legal e indultos em algum Natal próximo e onde o crime só faz compensar as coisas tem de mudar. E lá estão os legisladores, os antigos e quiçá os novos, esperando sua cota de vantagens para alterar pequenos trechos de uma Carta moribunda escrita para beneficiar, por exemplo, mais de 50 mil senhores imunes a qualquer investigação que não seja a do STF.

Como disse o ministro Guedes em seu discurso de posse, a democracia brasileira gerou uma aliança entre conservadores e liberais, chamada de direita pela esquerda de plantão, para dar uma oportunidade ao Brasil de abandonar 130 anos de uma cultura de esquerda, onde o Estado não é uma instituição-meio e sim uma instituição-fim existindo para atender suas próprias necessidades. 

Prometendo, e só prometendo, benefícios, ele justifica sua construção num processo de exploração via impostos de seu povo produtivo. Tudo forjado nas ideias positivistas dos primeiros atores da República e que evoluíram via personagens como Floriano, Castilhos, Borges, Getúlio, os militares de 64 e, finalmente, via MDB, PSDB e PT. Todo mundo alinhado criando tetas e mais tetas, sem falar na corrupção.

Esta cultura é contra a grande e verdadeira minoria humana existente no planeta: o indivíduo. Ao limitar liberdades individuais, o Estado passa a ser a solução divina para a construção da sociedade e isto não funciona. Ela deve se formar da cooperação individual via valores comuns considerados do bem (os valores conservadores) e sua riqueza vem da liberdade para produzir (economia liberal). Com entusiasmo, mas com limitado otimismo pela reação de muitos, observo a oportunidade em curso.

RICARDO FELIZZOLA